Acervo Ilê Ohum Lailai

Com novo projeto expográfico e requalificação física, o Museu Lailai volta a expor o seu acervo, composto por mais de 750 peças que fazem parte da história do centenário terreiro de candomblé Ilê Axé Opô Afonjá. As atividades de readequação do museu Ilê Ohun Lailai compreendem higienização, restauro e climatização do acervo. Com realização da Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia, as reformas refletem o prestígio e importância da casa de santo. Além disso, o Ilê Ohum Lailai é, ainda, um espaço privilegiado para educadores explorarem conteúdos vinculados à Lei 10.6391/2003, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica.

“O museu é um depósito de recordações do Axé e das cinco senhoras que estiveram à sua frente. Mas tudo precisa ser renovado, até o Axé. Por isso, a importância de realizarmos sempre reformas e variações no museu que conta a nossa história. Eu gosto de movimento e meus filhos de santo também” conta mãe Stella de Oxossi, Yalorixá que comanda o terreiro do Cabula que completou 100 anos em 2010.

No acervo, composto por mais de 750 peças, estão insígnias dos Orixás (objetos utilizados durante o culto), utensílios usados no preparo das oferendas aos Orixás, plantas litúrgicas e terapêuticas, instrumentos musicais e documentos do Ilê Axé Opô Afonjá, todos eles ligados ao culto, além dos objetos de culto das Iyalorixás da casa, em especial, de Mãe Stella.

Para Daniel Rangel, diretor de museus do IPAC, a atuação da DIMUS na reabertura deste memorial é diferente das outras, realizadas em outros prédios museológicos. “Por estar dentro de um espaço sagrado é preciso um cuidado diferenciado, tanto na realização da exposição, quanto na condução de todo o processo.

O projeto do museu é de Mãe Stella Ode Kayodé, criado por ela e pela psicóloga Vera Felicidade, Oni Kówé, após a visita da Iyalorixá à Nigéria, onde conheceu três museus que inspiraram a criação do Lailai. “Um dos museus tinha uma proposta bem simples, contava a história da cidade através de objetos do dia a dia. Lembrei de todo o material que possuíamos, das roupas de Mãe Aninha, dos objetos de Mãe Senhora, tudo meio espalhado. Começamos a criar o Lailai a partir desta ideia: mostrar a evolução do candomblé a partir de nossa própria história”, conta Mãe Stella, ela própria guardiã de muitas memórias do Ilê Axé Opô Afonjá.

Na mesma sintonia, o diretor da DIMUS explica: “Nesta exposição, queremos salientar a importância do valor imaterial dessas peças, a partir do valor que elas têm para esta comunidade. Os óculos de uma Iyalorixá aqui têm tanta importância quanto uma estatueta, ou talvez até mais, pelo valor a ele agregado. E além disso, a palavra final é sempre de Mãe Stella”.

ILÊ AXÉ OPÔ AFONJÁ – O Ilê Axé Opô Afonja foi fundado em 1910 por Eugênia Anna dos Santos, Mãe Aninha, Oba Biyi, responsável, em 1937, pela liberação do culto afro brasileiro, muito perseguido pela polícia brasileira nos primeiros anos do século XX. “A resistência do negro foi a fé”, ressalta Mãe Stella. Em 1984 o terreiro foi considerado uma entidade pública. Em 2000, foi tombado pelo IPHAN, tornando-se patrimônio histórico e artístico nacional.

Ao todo, cinco Iyalorixás estiveram à frente do Ilê Axé, cada uma, ao seu modo, perpetuou a religião tradicional dos Yorubá e Benin, ao mesmo tempo em que introduziram mudanças. Depois de Mãe Aninha, foram Iyás da Casa de Culto Mãe Bada, Mãe Senhora, Mãe Ondina e, atualmente, Maria Stella de Azevedo Santos, Mãe Stella de Oxossi, Odé Kayode, que assumiu o posto supremo da liderança religiosa do Opô Afonjá em 1976.

ILÊ OHUM LAILAI – Criado em 1982, o Museu Ilê Ohum Lailai acompanha a evolução do Candomblé no Brasil através do registro de uma das suas principais casas de culto, o Ilê Axé Opô Afonjá. Em 2000, o Lailai foi reformado e reaberto em uma nova sede, com apoio da Fundação Palmares. Passados onze anos, a Secretaria de Cultura do Estado da Bahia, através da Diretoria de Museus do Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia (DIMUS/ IPAC), realiza uma nova reforma, requalificando estruturalmente todo o seu interior, readequando o espaço físico e criando uma nova concepção expográfica.

O Lailai é o primeiro museu criado dentro de um terreiro de candomblé. Sua fundação teve como objetivo a proteção, difusão e dinamização do patrimônio e do acervo do Ilê Axé Opô Afonjá, constituindo um espaço vivo, onde são preservadas a memória e as tradições seculares da casa de culto. Desta forma, através de sua própria história, o Ilê Axé abre a possibilidade de acesso à informação e pesquisa sobre a religião afro-brasileira a estudantes e estudiosos da Bahia, do Brasil e de todo o mundo, tornando-se também um espaço privilegiado para educadores explorarem conteúdos vinculados à Lei 10.6391/2003, que estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica.

MÃE STELLA – Filha de uma família de professores, com um vida dedicada à religião, Mãe Stella é enfermeira aposentada (a única negra formada em sua turma, na Universidade Federal da Bahia) e responsável por implementar diversas iniciativas voltadas ao social dento do terreiro. A mãe de santo se preocupou com a criação de uma escola fundamental, uma biblioteca e um espaço para oficinas no Ilê Axé Opô Afonjá; além do próprio museu e de outras atividades culturais que fazem parte das programações realizadas por lá. Para Mãe Stella, se o candomblé focasse apenas no lado religioso, ficaria estático. “É preciso estar atento ao social, à educação dos filhos de santo também, para que tudo possa evoluir junto”, afirma. Ela relembra a máxima de Mãe Aninha, fundadora do Afonjá em 1910, que repetia que queria que todo filho dela servisse a Xangô com um anel no dedo (uma referência à formatura).

A vontade da Iyalorixá do Afonjá de contar a história e a evolução dos procedimentos de culto ao longo dos anos resultou na possibilidade de oferecer aos visitantes um exercício de revisitar o passado, sem que para isso precisem retirar os olhos dos dias atuais. “Quando fiz minha obrigação, em 1939, não tínhamos aqui luz elétrica, água encanada e, muito menos, transporte. Por isso, ao recontar estas histórias, o Lailai vai mostrando como o próprio mundo mudou, além do próprio candomblé”, conclui.

O que: Museu Ilê Ohun Lailai
Visitação: segunda a sexta das 8h às 12h e das 14h às 18h. Sábados, das 8h às 12h.
Entrada: grátis
Endereço: Ilê Axé Opô Afonjá – Rua Direta de São Gonçalo do Retiro, 557, Cabula, Salvador – Bahia

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