Minha cidade: Porto Alegre

Um dos mais respeitados e influentes escritores do Brasil guia-nos pelo seu berço amado, a capital do estado do Rio Grande do Sul, com olhar e palavras que desvelam segredos. O primeiro nome de Porto Alegre, quando deixou de ser apenas um povoado, em 1772, foi Freguesia de São Francisco do Porto dos Casais. Porquê Porto dos Casais? Porque o povoado era um porto no rio Guaíba, no estado do Rio Grande do Sul, extremo sul do Brasil, e porque seus primeiros habitantes foram casais de açorianos mandados pela coroa portuguesa para colonizar a região. Começo esta apresentação da minha cidade pelo seu primeiro nome porque os nomes sempre foram importantes na historia destes “gaúchos”, que é como se chamam os que nascem no Rio Grande do Sul.

Quem chega a Porto Alegre logo nota que existe uma cidade fantasma paralela à cidade real, uma cidade com nomes incorretos preservados ou nomes que não existem mais e continuam a ser usados – e a confundir o visitante. Por exemplo: o Guaíba, que todo o mundo em Porto Alegre chama de rio, não é rio. É um lago em que cinco rios se unem para entrar na Lagoa dos Patos, uma espécie de ante-sala da lagoa (que, por sinal, é um dos maiores corpos de água doce do mundo).

O visitante pode rodar por toda a cidade atrás da Rua da Praia, a principal da cidade, e não a encontrará. Procurará uma rua que margeie o rio (que não é rio) ou que comece ou termine numa praia. Mas não há praias no centro da cidade. Finalmente, desconfiado de que a rua principal só pode ser aquela que concentra a maior parte do tráfego de pedestres no centro da cidade, o visitante consultará as placas que identificam a rua e lerá “Rua dos Andradas”. Ninguém a chama assim. “Rua da Praia” é o nome antigo, que ficou. Porquê “da Praia”? Ninguém sabe. Só se sabe que ela vai da ponta do Gasómetro, que não é mais Gasómetro, à Praça Dom Feliciano, que todos chamam de Praça da Santa Casa, passando pela Praça da Alfândega, que mudou de nome para Praça Senador Florêncio, mas voltou a ser da Alfândega porque o novo nome não “pegou”. O visitante pode pensar em buscar orientação com o bispo e neste caso lhe dirão para subir a Rua da Ladeira até a Praça da Matriz, onde fica a catedral. Não encontrará a Rua da Ladeira, que hoje se chama General Câmara. E o nome da Praça da Matriz agora é Praça Marechal Deodoro, embora poucos porto-alegrenses saibam disso.

Se você encontrar a Praça da Matriz, pode fazer uma visita ao Teatro São Pedro, um dos orgulhos da cidade, com seu prédio em estilo barroco português e sua pequena plateia em forma de ferradura. Há quem diga que é o teatro mais bonito do Brasil. É certamente o mais bem cuidado, graças a uma mulher extraordinária chamada Eva Sopher que o reergueu das ruínas e o mantém como uma joia. Da sacada do primeiro andar do teatro você pode ver a praça de cima e, se tiver sorte, os jacarandás florindo. No outro lado da praça estão a catedral e o palácio do governo estadual, este no estilo neoclássico francês. São duas coisas que surpreendem, pela quantidade, quem visita Porto Alegre: a arquitetura neoclássica e os jacarandás.

Perto do Teatro São Pedro fica a Biblioteca Pública (outro exemplo do estilo neoclássico) com seu Salão Mourisco, ricamente ornamentado. Descendo a Rua da Ladeira (está bem, a General Câmara) você chegará ao chamado Largo dos Medeiros, que tem este nome extraoficial em homenagem ao café dos irmãos Medeiros que ficava ali, mas não se chamava Café dos Medeiros e sim Café Central. Seguindo para a esquerda você estará na Praça da Alfândega, onde todos os anos, em novembro, acontece a Feira do Livro, uma das maiores e mais antigas do Brasil. Nota biográfica: durante um certo tempo morámos num apartamento de frente para a Praça da Alfândega e minha lembrança mais remota de infância é a de brincar no chafariz da praça, com quatro anos de idade. Acho que o chafariz era colorido, mas isto já deve ser mais fantasia do que memória. Faz tanto tempo…

Depois de uma curta caminhada pela “Rua da Praia” você chegará ao antigo Hotel Majestic, hoje transformado na Casa de Cultura Mário Quintana, em homenagem ao grande poeta da cidade. Vale a pena subir ao seu terraço para ver o pôr do sol. Porto Alegre não pode reivindicar o pôr do sol como uma atração turística municipal, já que ele ocorre longe da sua jurisdição, mas há algo no ar que torna os crepúsculos vistos da cidade espetaculares, como em nenhum outro lugar, vá lá, do mundo. Saber colocar-se para ver o pôr do sol é uma das artes da cidade. Outro lugar preferido para um fim de tarde e para ter uma boa visão dos altos e baixos da cidade, cuja topografia já foi comparada à de São Francisco, na Califórnia, é o Morro de Santa Teresa. Mas atenção: se for de táxi, não peça para ir ao Morro de Santa Teresa. Diga “Morro da Televisão”. É o mesmo morro.

Do mirante do “Morro da Televisão” também se vê o imponente estádio do Internacional, um dos dois times de futebol que, com o Grêmio, dividem os torcedores da cidade. O Internacional é o meu time, mas preciso reconhecer, um pouco relutantemente, que o estádio do Grêmio também é imponente. Um jogo entre os dois times se chama “Grenal”. Acontece, alternadamente, no estádio de um e do outro e sempre sacode a cidade. Tanto o Grêmio quanto o Internacional já foram campeões do mundo.

No centro de Porto Alegre recomenda-se um passeio pelo Mercado Público, com suas bancas especializadas, como a que vende vários tipos diferentes de erva para o “chimarrão”, uma espécie de chá amargo típico do estado. No mercado há um dos restaurantes mais antigos da cidade, o Gambrinus. E os morangos com nata batida da Banca 43 são famosos.

Em Porto Alegre, não deixe de:

– conhecer o Brique da Redenção, uma feira a céu aberto que acontece todos os domingos no Parque Farroupilha, que os porto-alegrenses chamam de Parque da Redenção, seu nome antigo. “Brique”, na língua gaúcha, é o diminutivo de “bricabraque”. Trata-se de um mercado de antiguidades em que tudo é considerado antiguidade, até revistas da semana passada, mas também inclui coisas valiosas, e vale pelo passeio;

– comer no Barranco, uma churrascaria que fica aberta até às duas da manhã e atrai uma freguesia eclética que inclui torcedores do Grêmio e do Internacional, sem conflitos. Para uma cozinha mais sofisticada recomenda-se o Seasons ou o Bateau Ivre. Ou um dos tantos restaurantes japoneses que, contrariando todas as expectativas, caíram no gosto dos gaúchos, tradicionalmente carnívoros;

– visitar o museu da Fundação Iberê Camargo, excelente pintor gaúcho já falecido. O museu, que fica na beira do rio que não é rio e é outro bom lugar para se assistir ao por do sol, é obra, admirável, do arquiteto português Álvaro Siza. E, claro, não deixe de voltar.

por Luís Fernando Veríssimo

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